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Formandos têm aula especial sobre preconceito linguístico

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Em 5 de Abril de 2019

No dia 11 de março, os alunos da 3ª série do Ensino Médio tiveram uma aula especial de leitura comparada, contando com uma professora convidada, para discutir o preconceito linguístico, temática que pode cair em provas vestibulares importantes e também vem sendo trabalhada ao longo do ano com a turma. Foram comparadas duas obras: o livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, de Carolina Maria de Jesus, e o disco “Sobrevivendo ao Inferno”, dos Racionais MC’s, com o objetivo de gerar uma discussão sobre o tema, preparar e inspirar os alunos para uma proposta de produção textual inédita, que compôs o simulado de março, como treino para a redação da Fuvest. As duas obras escolhidas também fazem parte da lista obrigatória do vestibular da Unicamp. “Preconceito linguístico é julgar alguém pela forma como fala, escreve e se expressa. Notamos ‘erros de português’ nas duas obras, sim. Mas não são erros, são desvios gramaticais. Temos que entender que o autor consegue se expressar e passar a mensagem, por mais que não siga a norma culta, relacionando o preconceito linguístico com essas vozes – que não são ouvidas, são socialmente marginalizadas. Não é uma exclusão geográfica, e sim social”, explicou a professora Laura Juliana Alberto, do apoio de linguística e literatura, que foi a convidada especial para abordar as obras e o tema nas salas de 3ª série.

O preconceito linguístico é um tema bastante atual, que começou a ser discutido nas escolas agora. “Tenho 30 anos de magistério e nunca tinha trazido o tema para a sala de aula. Por muito tempo isso nem era permitido, porque acreditava-se que apenas a norma culta deveria ser estudada”, contou a professora de produção textual Patrícia Cajai. “Queremos falar sobre juventude, sobre privilégios, inclusão e exclusão. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) há um eixo sobre juventudes da realidade brasileira, e queremos trazer essa discussão para a sala de aula, para que os estudantes vejam que muita gente não lê porque não tem acesso, não porque não queira ou não se interesse”, disse a professora de português Ana Paula Lima. “A proposta é fazer o aluno se sentir parte do todo e construir um olhar humanístico da realidade do país, além de ampliar seu senso crítico e seu repertório cultural. Afinal, todos os tipos de arte são válidos, mesmo as obras de pessoas com baixa escolaridade”, completa Laura.

Vozes excluídas

“Quarto de Despejo” é uma edição dos diários de Carolina Maria de Jesus, migrante de Sacramento, Minas Gerais, que morava na primeira grande favela de São Paulo (a Canindé, desocupada em meados dos anos de 1960 para a construção da marginal Tietê). Ela era negra, mãe solo e catadora de papel e escrevia em qualquer pedaço que sobrasse, fazendo da escrita seu refúgio e terapia. Carolina foi descoberta por um jornalista, que ficou impressionado com seus textos e resolveu divulgar seu trabalho. Ela faleceu em 1976, aos 62 anos, e ganhou uma homenagem do Google no dia 14 de março, com um Doodle, na data em que seria seu aniversário de 105 anos.

Já “Sobrevivendo ao Inferno” é um famoso álbum lançado em 1997 pelo grupo de rap Racionais, incluindo canções que fizeram muito sucesso e que tinham letras bastante fortes de crítica social, como “Diário de um Detento” e “Capítulo 4, Versículo 3”. Para o estudo proposto, foi utilizado um livro que reúne todas as letras do álbum.>Os alunos também ouviram trechos dessas músicas durante a aula, prestando atenção nos versos agressivos, na linguagem com gírias e nos temas abordados, denunciando a violência na periferia de São Paulo. “As músicas eram uma forma de protesto, já que muitos não sabiam como era a realidade de quem morava na favela e toda a violência enfrentada por essas pessoas diariamente. Os diários de Carolina também faziam denúncias e relatos de seu cotidiano. As duas obras foram escritas por favelados, em diferentes épocas, na mesma cidade. E o tratamento linguístico delas é muito interessante. Os desvios não se dão apenas devido à baixa escolaridade dos autores. Por exemplo: o Mano Brown, que é o principal vocalista dos Racionais e compositor da maioria das músicas, faz desvios gramaticais de propósito, com o objetivo de gerar identificação e proximidade com a população sobre a qual relata em suas letras”, ensinou Laura.

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