Colégio Dante Alighieri
Jackson Fergson de Farias

#fiquebememcasa

Quais foram e como as sociedades enfrentaram as pandemias e epidemias ao longo da História? O que podemos aprender com o passado? O professor Jackson Fergson de Farias, coordenador do Departamento de História do Dante, responde a essas e a outras perguntas.

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Pandemias e epidemias na História

“A peste negra foi uma pandemia que varreu a Europa Ocidental em meados do século XIV. Ela era a soma de várias doenças que se espalharam pelo continente, sendo que a mais impactante era a peste bubônica

Já entre o fim do século XIX e meados do XX, é bom que se diga que era muito comum que doenças matassem muita gente. Na época da imigração italiana, as pessoas usavam o termo “a peste” para nomear essas doenças. Nas viagens transatlânticas, era comum que pessoas morressem por causa delas. No tráfico negreiro, varíola e escorbuto mataram muitos dos negros escravizados que eram transportados da África para cá. No século XX, a varíola continuou fazendo muitas vítimas, pelo menos até meados dos anos 1980, inclusive aqui no Brasil. Somaria varíola à cólera, que é uma doença associada à falta de saneamento básico. Ainda hoje, em vários lugares do mundo, ela é uma epidemia. Vale lembrar que, em 2010, um dos maiores efeitos do terremoto no Haiti foi o retorno da cólera.

E houve a gripe espanhola, chamada assim porque, entre 1918 e 1919, quando ela se espalhou, os portos da Espanha foram identificados como focos de irradiação da doença. Mas os estudos da época e também os mais recentes indicam que ela não surgiu na Espanha, mas sim nos Estados Unidos. Essa doença ficou muito marcada na memória daquela geração porque atingiu uma sociedade em urbanização. Ela começou a se espalhar ainda nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial e atingiu sociedades extremamente debilitadas. E uma última epidemia a ser lembrada começou no inverno de 2009, aqui no Brasil, a H1N1 – a chamada gripe suína.

Em todas essas pandemias e epidemias, a letalidade das doenças é muito maior entre os mais pobres. A gripe espanhola, a H1N1 e agora a Covid-19, por exemplo, exigem de toda a população uma condição que é muito difícil em países particularmente pobres: quando você pede que um grupo grande da sociedade fique em quarentena e isolamento social, pressupõe-se um acúmulo de riqueza, uma estrutura social que boa parte da população não tinha na Baixa Idade Média, nem na Idade Moderna — e continua não tendo.”

Pandemias e epidemias no Brasil

“O Brasil foi atingido pela gripe espanhola; a varíola e a cólera mataram muita gente por aqui. No começo da República, varíola, peste bubônica e febre amarela estavam relacionadas às políticas sanitárias daquele período, que ao mesmo tempo que se propunham a organizar, por exemplo, o saneamento básico do Rio de Janeiro, que criavam políticas de combate aos mosquitos, também estavam associadas a uma medida de caráter repressivo, muito comum em uma república excludente como é a República Brasileira das primeiras décadas.

Vale ressaltar que a transmissão de doenças foi um dos fatores decisivos para a mortalidade indígena no Brasil. No começo do século XVI, o contato entre um indígena e um europeu era de uma letalidade gigantesca. Os indígenas não tinham, nem no Brasil e nem em nenhum ponto da América, imunização para doenças que hoje são corriqueiras, como a gripe. Então praticamente todas essas doenças tiveram um impacto bem grande no Brasil, com desdobramentos. Nos séculos XVIII e XIX, uma mortalidade gigantesca levou à organização de medidas sanitárias — mas para as autoridades coloniais. No início do século XIX, Dom João, ao chegar ao Brasil, impôs aos seus administradores uma reorganização do Rio de Janeiro.

No começo do século XX, também foram tomadas algumas medidas higienistas no Rio de Janeiro e em São Paulo — todas elas relacionadas à tentativa de diminuir o impacto de doenças pelo menos em uma parte da população.”

Foto: Pexels.com

Impactos sociais e políticos pós-pandemias

“A peste negra, por exemplo, deflagrou um surto antissemita na Europa Ocidental. Muitos dos sobreviventes, à época, não tinham condições de entender por que o número de mortos era tão pequeno entre os judeus. Hoje nós sabemos que isso estava associado às práticas de higiene daquela comunidade. Mas na Baixa Idade Média isso levou ao massacre e à perseguição da comunidade judaica no ocidente europeu.

Quanto a impactos políticos, se pensarmos que política é uma palavra que ganha uma conotação diferente a partir do século XVIII, podemos reparar que parte dessas grandes doenças se espalhou em um mundo em que não existia política, só existia poder. Talvez nós tenhamos essas doenças embasando, em países minimamente organizados, políticas públicas voltadas para saneamento básico, educação, medidas de melhoria da qualidade de vida para boa parte da população.”

Como as sociedades enfrentaram as pandemias

“Na época da peste negra, pouco se entendeu sobre o que tinha sido aquilo e como aquela doença tinha matado tanta gente. Nos séculos XV e XVI, as cidades europeias continuavam desprovidas de saneamento básico, as valas de esgoto corriam no meio da rua.

Já nos séculos XIX e XX, alguns parâmetros científicos começaram a ser utilizados. Abandonou-se o obscurantismo, e cientistas, pesquisadores, sociólogos, antropólogos e cientistas químicos se empenharam em entender essas doenças. E vieram, então, grandes transformações nos hábitos das populações — como os básicos de higiene que temos até hoje, com sabonete e álcool em gel à disposição em boa parte dos lugares de grande circulação de pessoas. O Brasil talvez seja um dos poucos países do mundo onde não seja comum o uso de máscaras em períodos de tempo seco, de expansão de vírus como o da gripe. Até mesmo hábitos cotidianos como a alimentação, a organização das vilas, foram sendo alterados no século XX por conta da letalidade de certas doenças. A nossa tentativa constante de manter água limpa, potável, é outra consequência das mudanças do período.

Mas essas mudanças e reorganizações infelizmente nunca atingiram a sociedade toda. Ainda temos, em países como o Brasil, milhões de pessoas expostas a doenças como varíola e leptospirose, que são associadas às condições ambientais, à falta de saneamento básico e à falta de instrução.

Ainda assim, nas últimas quatro ou cinco décadas, o Brasil foi um dos países que mais avançaram na política de vacinação pública, por exemplo. Até muito recentemente, os brasileiros tinham motivos para se orgulhar pela erradicação de doenças como a pólio e a varíola. Isso foi possível por conta das políticas públicas de vacinação de boa parte da população, da tentativa do governo brasileiro de transformar isso em um tema educacional, gastando um bom dinheiro em propaganda. Quem tem alguns anos a mais aí do que os meus alunos deve lembrar de um personagem chamado Zé Gotinha.

A sociedade brasileira também foi percebendo como era simples combater algumas das doenças que matavam muita gente. Nos anos 1980 e 1990, a médica sanitarista Zilda Arns corria o país ensinando as pessoas a fazerem soro caseiro, para enfrentar efeitos de doenças que causavam diarreia e matavam muitas crianças. O Brasil das últimas três ou quatro décadas teve uma queda sintomática da mortalidade infantil, que era um problema estrutural.”

A Covid-19

“Ainda não sabemos os efeitos e consequências da pandemia. Estamos em setembro e meu lado mais positivo quer acreditar que nós estamos a poucas semanas, talvez poucos meses de uma vacina que possibilite às sociedades uma reorganização. Entretanto, como historiador, eu preciso lembrar também que pode ser que continuemos em pandemia e em reclusão por muitos meses.

Por isso eu acho que qualquer comparação com o passado precisa ser feita mediante essa restrição: ainda estamos vivendo uma pandemia. Além disso, ela ocorre em um mundo diferente. O mundo era bem menor no século XIV e no começo do século XX do que é hoje. Estamos falando de uma doença que se espalha em sociedades ocidentais com o uso do avião, dos trens, dos ônibus, com uma velocidade incrível. A São Paulo que foi assolada pela gripe espanhola está no mesmo local geograficamente, os nomes das ruas são os mesmos, mas a cidade é totalmente diferente. O número de pessoas que utiliza o transporte público é provavelmente maior que toda a população de São Paulo um século atrás.

Eu espero que essa experiência permita uma boa reflexão sobre o que nós podemos aprender com essa história, o que precisamos reorganizar na sociedade para os próximos tempos. Eu me entristeço um bocado ao perceber que muita gente não entende ou se recusa a aceitar a necessidade de se cuidar. Além de cuidar de você mesmo, você tem a responsabilidade de cuidar do outro. Sair sem máscara e causar propositalmente aglomerações sociais são coisas que a sociedade vai ter que aprender a não fazer mais, por um tempo.”

Aprendendo com a História

“Todos os dados que estão sendo colhidos e expostos nos últimos meses indicam como a disciplina de História é fundamental para compreender, por exemplo, a letalidade diferente dessa doença em cada bairro de São Paulo. Nós precisamos da História como uma ferramenta que permita a compreensão desse fenômeno em suas escalas, em sua profundidade, para perceber, por exemplo, por que a reclusão é tão difícil em um país como o Brasil. Ela nos ajuda a refletir por que para algumas pessoas o “fique em casa” não faz nenhum sentido — já que infelizmente muitos brasileiros não têm casa, não têm um lugar para ficar. É muito importante percebermos também por que tanta gente sofre em um país como o nosso porque o shopping fechou. Eu vejo, na imprensa, pessoas emocionadas porque o shopping reabriu. E quando o jornalista pergunta se ela trabalha ali, tentando entender, a pessoa diz que foi passear, comprar um picolé, pagar uma conta... Para ela, talvez o shopping seja o único lugar de socialização e de lazer. São algumas reflexões que um historiador precisa aprender a fazer. A História vai ser muito útil quando nós tivermos que lidar, por exemplo, com perguntas sobre nossos modos de viver. São Paulo é, historicamente, uma cidade tomada pelo trânsito, com milhares de pessoas circulando ao mesmo tempo. De repente, parte considerável dessa força de trabalho é transferida para trabalhar em casa no home office e a economia continua funcionando. Talvez seja a hora de a História nos ajudar a perceber por que tantos de nós nos deslocamos por espaços tão grandes entre nossas casas e nossos trabalhos, por que algumas áreas da cidade têm tanta concentração de escritórios. E de refletirmos um pouco sobre as raízes históricas disso, bem como sobre nossas dificuldades e desafios.”

Foto: Pexels.com