Colégio Dante Alighieri
Denise Guilherme

#fiquebememcasa

Confira as dicas de Denise Guilherme, consultora em projetos de leitura, mestre em educação pela PUC-SP, idealizadora e diretora do clube de assinatura de livros infantis A Taba.

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NARRATIVAS INTERNAS, EXTERNAS E COLETIVAS

“A leitura é uma experiência de contato com a arte por meio das palavras. Acredito que, especialmente neste período de isolamento social, qualquer contato com arte seja benéfico para o nosso mundo interior, nosso mundo simbólico. Ela nos possibilita um mergulho interno, um olhar para dentro que pode ser muito rico. Porque a literatura é um olhar para um espelho, para uma realidade ou experiência de vida diferente da nossa, mesmo que semelhante — mas é sempre uma comparação do mundo do outro com o nosso mundo. Então ela possibilita também a ampliação do olhar, em qualquer contexto.

Especialmente para as famílias, ela propicia também uma proximidade em torno de uma experiência estética. Para as famílias, ler uma história com todos juntos é suspender o tempo. Entrar em um universo de faz de conta que nos permite viajar, escapar, imaginar outras possibilidades para além do que estamos vivendo.

Como sociedade, como coletivo, a literatura permite que construamos uma casa imaginária, que tenhamos uma coleção de palavras, uma casa de narrativas, e isso é fundamental para a construção de novos mundos. Está claro, agora, que nosso modelo de vida não é sustentável, nem para nós, nem para o planeta. E, se entendemos que tudo são histórias – ou seja, um partido político, uma religião, um casamento e uma empresa são narrativas –, quanto mais palavras acessarmos, maior será nossa capacidade de construir novas narrativas, discursos e, assim, novos mundos.”

PARA UMA EXPERIÊNCIA DE LEITURA PRAZEROSA

“A experiência de leitura em casa deve ser prazerosa, ela não entra no lugar da obrigação. Acredito que o melhor jeito de estimularmos crianças e adolescentes a vivenciarem a leitura como lazer é torná-la uma experiência de proximidade, que cria vínculo. Sei que para muitas famílias encontrar um tempo na rotina para ler com todos juntos tem sido difícil, mas esse tempo é importante não só para as crianças e adolescentes mas também para nós, adultos. A leitura literária possibilita um mergulho em profundidade que para nossa mente é como uma espécie de meditação, tão necessária neste momento em que há bombardeio de informações, estresse e angústias em relação ao futuro. Traz uma quietude para a mente, e isso não se relaciona apenas com escape da realidade: é sobre a elaboração de conteúdos psíquicos e simbólicos para lidar com a vida, com o mundo.

Então recomendo que se abra espaço para esse momento. Se são filhos adolescentes, pode-se ler o mesmo livro que eles estão lendo para conversar a respeito, criar uma troca e um contato por meio da arte. Assistir juntos a um filme inspirado no livro lido, falar sobre o assunto, retomar obras lidas/assistidas na sua infância e adolescência e contar para os filhos. A leitura não precisa entrar em casa como um hábito diário, como escovar os dentes. Ela preenche o lugar de contato do adulto, que dedica um tempo para estar com seus filhos.”

Foto: Pexels.com

ATIVIDADES PARALELAS QUE FORTALECEM O HÁBITO DA LEITURA

“Além de ler com os filhos, também é válida a contação de histórias de vida: cada pessoa é um baú e muitas famílias vivem juntas sem que os filhos conheçam as histórias dos seus pais. Do que faziam quando eram crianças, quem era o melhor amigo, em que escola estudaram, algum episódio que aconteceu, o que gostavam de comer e o que não gostavam, um passeio incrível feito com um avô... São narrativas do cotidiano que também possibilitam que se construa uma biblioteca de afetos, e as crianças e os adolescentes também vão se apropriando dessas narrativas e criando memórias afetivas em torno das palavras.

Também é interessante gravar histórias e inventá-las, brincar com a linguagem, ofertar o acesso a livros diversos, de qualidade, que possam aproximar as crianças do universo da palavra. Também pode-se criar brincadeiras a partir dos livros, como um jogo da memória com capas de livros e outras dicas que damos no site da Taba. E rodas de leitura on-line com amigos, também, que proporcionam conversas preciosas.”

A AUTONOMIA NÃO DEVE ACABAR COM A INTERAÇÃO

“Quando uma criança se torna capaz de ler sozinha, a maior parte dos adultos deixa de ler para ela. Mas a interação é um aspecto muito importante na leitura, ler junto é um ato de amor, em que o adulto empresta a sua competência leitora e a sua voz para estar com a criança, para tornar mais acessível um texto que talvez a criança não tivesse condições de ler sem ele. É como colo: algumas pessoas dizem que, quando você dá muito colo, a criança se acostuma. Eu acredito que, se você acolhe a criança no momento em que ela pede, ela se sente segura para poder dar seus passos com autonomia e independência.

Você pode ler uma página em voz alta e a criança ler a seguinte. Para os adolescentes também é válido ler junto: eu posso ser leitor autônomo de poemas e não de ensaios, artigos jornalísticos, texto de divulgação científica, por exemplo, e essa parceria ajuda.”

Foto: Pexels.com

MÃES E PAIS PRECISAM SER LEITORES VORAZES?

“Muitos adultos que não tiveram acesso a experiências de leitura prazerosas na infância, uma família que favoreceu ou uma escola que propiciou o encontro têm a possibilidade de fazer uma trajetória de formação leitora a partir da leitura com os filhos. É uma oportunidade de se apaixonar pelos livros. Quando isso acontece, é uma experiência muito linda.

Os bons livros para crianças são também bons para adultos, porque tocam em um aspecto fundamental da psique que é nossa criança interior. E muitos livros de literatura infantil trazem conteúdos que também nos convidam a refletir sobre nossas questões internas. Você não precisa ser um leitor voraz, pode apenas ler com seu filho.”