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Site publica resenha de professora do Dante


A professora Maria Teresa Fornaciari, do departamento de Língua Portuguesa do Colégio Dante Alighieri, teve uma resenha literária publicada em um site da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo (www.leialivro.com.br).

O texto fala sobre a obra “São Bernardo”, do escritor brasileiro Graciliano Ramos. Leia a resenha abaixo, ou acesse o link http://www.leialivro.com.br/texto.php?uid=11763.


São Bernardo, Graciliano Ramos
09/10/2006

Graciliano Ramos, autor de São Bernardo, dizia que "a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer". E a palavra diz muito nesse romance de 1934, onde se vê configurada uma pesquisa incessante da alma humana, onde a luta contínua entre o que se é e o que se aparenta ser para a sociedade é ininterrupta e dolorosa.

Paulo Honório é o protagonista dessa narrativa com visão de mundo pessimista e sarcástica e o leitor sente o peso do conflito vivido por ele. Continuamente e cada vez mais, enxerga-se um adulto imerso em frustrações e configura-se, no romance, a máxima machadiana "o menino é o pai do homem": filho de ninguém, guia de cego, carpidor de cana, criou-se em meio a desigualdades sociais e, conseqüentemente, tem que se apoderar da fazenda São Bernardo porque a sociedade lhe deve isso. Na realidade, é possível afirmar que Paulo Honório seja o próprio Graciliano Ramos de vida atormentada e tormentosa, sempre pobre e inconformado com seu destino.

O sentimento de propriedade domina o personagem de alma dura; seus valores resumem-se a cifras e o próximo só lhe interessa se estiver ligado a seus negócios. Uma única vez se mostrou grato e isso surpreende o leitor assustado com a brutalidade de Paulo Honório, que soube driblar a vida, pisotear princípios e pessoas e se tornar respeitado e temido fazendeiro; recolheu a velha Margarida, a negra que o alimentou na infância, mas mesmo assim, suas relações afetivas concretizaram-se numericamente: "a velha Margarida mora aqui em São Bernardo... Custa-me dez mil-réis por semana, quantia suficiente para compensar o bocado que me deu."

No entanto, a obra São Bernardo nasce realmente quando Madalena, a professora loira de olhos azuis plácidos e bondosos resolve casar-se com ele. Ela, que fora criada pela tia devotada, D. Glória, conhecia a grandeza do amor e da compaixão, era instruída e sensível; ela era o avesso do latifundiário inescrupuloso: "Diferenças? ... Deve haver muitas. ... A senhora aprendeu várias embrulhadas na escola, eu aprendi outras quebrando a cabeça por este mundo. Se chegarmos a um acordo, quem faz um negócio supimpa sou eu."

Madalena surge e instalam-se na vida da Paulo Honório os germes que se pouco a pouco se apropriarão de sua propriedade e de sua pessoa. O patriarca em busca de herdeiro casa-se de fato por amor, mas não sabe lidar com o sentimento; ele teria que se reformular cabalmente, no entanto, isso não é possível à sua mentalidade deformada e deformante. Se o amor une e congrega, o sentimento de propriedade separa e fraciona. A dedicação de Madalena pelos desvalidos e a meiguice de seu caráter fraternal de princípios socialistas ameaçavam a couraça moral que Paulo Honório construíra a duras penas durante toda a vida. Impressionantes as descrições de caráter expressionista de suas mãos, numa tentativa vã de o narrador costurar as fendas de sua armadura que pouco a pouco se rachava, para seu desespero: "Que mãos enormes! As palmas eram enormes, gretadas, calosas, duras como casco de cavalo. E os dedos eram também enormes, curtos e grossos. Acariciar uma fêmea com semelhantes mãos!" Madalena não admite ser propriedade do marido e o ciúme de Paulo Honório, descrito com uma incrível crueza, faz com que a voz dela seja cada vez mais abafada pela dele, até sucumbir. Não houve meio de escapulir daquele mundo, a não ser com a morte: "Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado. Parado. No soalho havia manchas de líquido e cacos de vidro."

Paulo Honório tem consciência de seu fracasso: "Estraguei minha vida estupidamente", mas também sabe da impossibilidade da reversão de seus erros: "Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige." No entanto, seu aniquilamento espiritual, pelo cultivo implacável do ciúme, seu autodevoramento exige-lhe uma nova construção: a obra em que conta a sua derrota: o presente vai corroendo o passado para que o futuro se possa afirmar. Porém, Paulo Honório não dominava as palavras, afinal aprendera a ler quando preso, nas páginas surradas de uma bíblia protestante. Assim, se o trato da forma lhe serviu como obstáculo, o pio da coruja obriga-o a começar sem perda de tempo. Restava-lhe a escrita; talvez ela lhe devolvesse a paz desejada. Mas os fatos e o tempo não voltam. Se, no início da obra, ele pretendia uma certa divisão de tarefas, para a elaboração de seu livro, no momento em que a coruja grita e o arrasta para a escrita, o ato se torna isento de cálculo; gratuito, como deve ser o ato de criação verdadeira. A ave amaldiçoada por ele mesmo e pela noite e que constantemente foi associada à decomposição de seu corpo, de sua personalidade e de seus sentimentos, foi essencial.

Se Paulo Honório é símbolo de resistência do arcaico e corresponde à personificação do mundo capitalista, representou bem o homem, o ser político, que não pode aspirar à absoluta isenção e à racionalidade, devido a seus conflitos internos que lhe enevoam a razão. Por outro lado, também simboliza o ser humano amordaçado por convicções exteriores, que se fecha e se torna endurecido, mas que, a um tênue sopro de ternura e sensibilidade, torna-se vulnerável. Ficção que representa fielmente a realidade da década de trinta do século passado. Ficção que remete o leitor à análise de seu tempo, na primeira década do século XXI: análise da angústia do homem inserido no mundo em que as coisas equiparam-se às pessoas, em que valores éticos e morais caminham à margem, em que o ser humano reconhece seus bons sentimentos, quando eles sutilmente escapam às etiquetas de sua roupagem e ofuscam o brilho de suas mercadorias. Grande clássico.

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